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quinta-feira, 7 de março de 2013
A Vida Modo de Usar (Georges Perec)
"Certo, a história poderia começar assim, aqui, desta forma, de maneira um tanto lerda e lenta, neste reduto neutro que é de todos e não é de ninguém, onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio repercute, distante e regular. Do que se passa por trás das pesadas portas dos apartamentos só se percebem no mais das vezes os ecos perdidos, os fragmentos, os esboços, os contornos, os incidentes ou acidentes que se desenrolam nas chamadas “partes comuns”, esses leves ruídos de feltro que os gastos tapetes de lã vermelha abafam, esses embriões de vida comunitária que vão sempre se deter nos patamares. Os habitantes de um mesmo prédio vivem a apenas alguns centímetros uns dos outros, uma simples divisória os separa, partilham os mesmos espaços que se repetem ao longo dos andares; fazem os mesmos gestos ao mesmo tempo, abrir a torneira, dar a descarga, acender a luz, pôr a mesa, algumas dezenas de existências simultâneas que se repetem de andar em andar, de prédio em prédio e de rua em rua. Eles se entrincheiram em suas partes privativas — pois é assim que se chamam — e gostariam que nada dali saísse, e o pouco que consentem em que saia, o cão na coleira, o menino que vai comprar pão, o recebido ou o expedido, é pela escadaria que sai. Pois tudo o que se passa passa pela escadaria, tudo o que chega chega pela escadaria, as cartas, os comunicados, os móveis que os carregadores trazem ou levam, o médico chamado com urgência, o viajante que volta de longa viagem. É por esse motivo que a escadaria permanece um lugar
anônimo, frio, quase hostil."
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
As Coisas (Georges Perec)
"(...) quem não trabalha não come, é verdade, mas quem trabalha não vive mais. (...) Ao acordar, se sentiam terrivelmente amargurados; toda noite voltavam para casa cheios de rancores, em metrôs lotados; desabavam embrutecidos, sujos no sofá, e então só sonhavam com longos fins de semana, com dias sem ter o que fazer, com acordar tarde. Sentiam-se cerrados, apanhados numa armadilha, perdidos, igual a ratos. Não conseguiam se conformar. Ainda acreditavam que tantas coisas podiam lhes acontecer, que a própria regularidade dos horários, a sucessão dos dias e das semanas lhe pareciam um obstáculo que não hesitavam em qualificar de infernal."
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